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PATRIMÔNIO

A ressurreição da Sé

A igreja mais importante da cidade, que
passou décadas malconservada, reabre
neste domingo após uma restauração que
durou 29 meses e
custou 19 milhões de reais

Erika Sallum


Fotos Mario Rodrigues
Atrações da catedral: com a reinauguração, o visitante poderá apreciar belos detalhes antes escondidos pela sujeira, como o tatu esculpido em uma das colunas, o mosaico de São Paulo, a série de vitrais europeus e o púlpito de nogueira e bronze

No dia 8 de julho de 1999, os paulistanos levaram um susto e tanto. A Catedral da Sé, um dos maiores símbolos da cidade, amanheceu interditada. Com vitrais quebrados, portas estragadas e paredes repletas de rachaduras e vazamentos, a igreja encontrava-se em estado avançado de deterioração. Por causa das infiltrações, fragmentos do teto corriam o risco de desabar a qualquer momento. Trincas enormes eram vistas nas colunas de granito e no chão de mármore. Ninhos de urubu infestavam o telhado e um cheiro de mofo espalhava-se pelos cantos. Diante da situação, a prefeitura não viu outra saída a não ser lacrar o templo encravado no marco zero da capital, como faz com os cortiços caindo aos pedaços. Uma fita amarela foi colocada na escadaria principal para impedir que os visitantes se aproximassem de um dos mais conhecidos cartões-postais da metrópole. Passados três anos, São Paulo recebe de volta seu santuário: a Sé será reaberta neste domingo (29), após uma restauração que demorou 29 meses e custou 19,5 milhões de reais. Às 10 horas, o cardeal-arcebispo dom Cláudio Hummes vai celebrar uma missa. "Todo paulistano, de um jeito ou de outro, aprendeu a amar a Sé", diz dom Cláudio. "Vê-la fechada tanto tempo foi lastimável."

O templo neogótico, que readquire todo o seu esplendor, emoldurou acontecimentos que marcaram época. Não é, claro, uma Saint Paul de Londres ou uma Notre-Dame de Paris. Mas dentro dela ou diante de suas escadarias houve manifestações importantes, dos comícios contra a ditadura de Getúlio Vargas, nos anos 40, ao grande ato público que desfechou a campanha das diretas já, com a presença de 300 000 pessoas, em 1984. Foi também na Sé que o então arcebispo dom Paulo Evaristo Arns celebrou, em 1975, ao lado do rabino Henry Sobel, do reverendo Jaime Wright e de dom Hélder Câmara, o culto ecumênico em memória do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pelo regime militar (veja quadro). "Mais do que pela arquitetura, a Sé tem extremo valor histórico e cultural", diz José Eduardo de Assis Lefèvre, professor de história da arquitetura da USP. "É um monumento que conta muito da trajetória paulistana."


AGORA 1999
Fotos Mario Rodrigues
rigues
Mudança radical: os portões de jacarandá, que chegam a pesar 2,6 toneladas, estavam estragados pela umidade

Pela primeira vez desde o início da construção, em 1913, a catedral poderá ser vista praticamente como foi projetada. Segundo as plantas originais, além das duas torres maiores da fachada, o arquiteto alemão Maximillian Hehl havia concebido outras catorze, que finalmente puderam ser erguidas. Por falta de verba, a igreja foi inaugurada sem estar pronta, em 1954, durante as comemorações do quarto centenário de São Paulo. Ficou assim até aqui. Não houve dinheiro para terminá-la – nem sequer para cuidar da manutenção. Nos lugares em que as torres deveriam ser levantadas, existiam buracos, através dos quais entravam água de chuva, pombos e muita sujeira. "Certa vez, começou uma tempestade e de um dos buracos formou-se uma cachoeira que molhou tudo", conta Maria Aparecida Soukef Nasser, engenheira e coordenadora da obra. "Era inacreditável."

As catorze torres seguem o estilo neogótico e por pouco não puderam ser erguidas. Como a equipe de arquitetos e engenheiros não tinha as plantas originais, perdidas havia décadas, foi elaborado um projeto, digamos, mais contemporâneo, no qual as torres seriam feitas de vidro transparente azul. Dom Cláudio vetou a proposta e exigiu que a catedral fosse terminada de acordo com a concepção de Hehl. Começou aí uma caçada atrás das plantas antigas, que só terminou durante uma faxina no coro. Lá estavam, no meio de entulhos e lixo, os desenhos do arquiteto alemão. Logo em seguida, apareceu um segundo desafio: como construir torres góticas em pleno século XXI? "Foi uma luta", desabafa o arquiteto Paulo Bastos, que dirigiu a restauração. "Se usássemos granito, material que fora utilizado na construção, a igreja inteira poderia ceder com o peso." Bastos optou por uma estrutura de ferro revestida com argamassa e fibra de vidro, o que reduziu o peso das torres em cerca de 50%. Vistas de longe, parecem pequenas, mas o tamanho delas varia de 12 a 19 metros de altura. Com a finalização da catedral, a intenção é que, no futuro, os visitantes andem por todo o telhado. A partir deste domingo será permitido subir ao coro, a uma altura de 15 metros, de onde se tem uma vista interessante da Praça da Sé e dos arredores. Quando o projeto de restauro estiver inteiramente pronto, o que depende da arrecadação de mais recursos, as pessoas poderão caminhar ao redor da cúpula, a quase 60 metros do chão.


AGORA 1999
Fotos Mario Rodrigues
rigues
De cara nova: nos buracos deixados por falta de dinheiro, foram erguidas catorze torres, como previa a planta original

Outra agradável surpresa é a cripta, situada abaixo do altar-mor. Com 619 metros quadrados ornamentados com belas colunas, guarda os restos mortais de vários bispos de São Paulo, do cacique Tibiriçá e do regente Feijó. É uma jóia arquitetônica e um dos lugares mais bonitos da Sé. Foi o que mais sofreu com a falta de conservação. A umidade e a infiltração quase acabaram com o mausoléu. "Os túmulos estavam verdes de tão sujos, mal dava para ler as inscrições nas lápides", descreve o restaurador Júlio Moraes. Com uma equipe de doze profissionais, ele passou dois anos limpando e recuperando esculturas, mosaicos e objetos religiosos. Em uma sala, encostado perto de uma caixa-d'água, Moraes encontrou um Cristo de madeira de 1773. Recuperada, a imagem ficará na entrada da cripta. A Capela do Santíssimo Sacramento encontrava-se em um estado semelhante de degradação. Feita de bronze, ônix e mármore de Carrara, ela reúne uma série de baixos-relevos com motivos sacros, que por décadas ficaram escondidos pela sujeira. Vale a pena apreciar a cor caramelada do mármore do altar e as esculturas que compõem o pórtico.


Mario Rodrigues
Capela do Santíssimo: mármore cor de caramelo e pórtico com baixos-relevos e anjos de bronze

Quem conhece a Catedral da Sé vai notar que a claridade externa passou a iluminar seu interior. Isso porque todos os 52 conjuntos de vitrais foram pacientemente limpos. Antes, quando um deles se quebrava, era comum tapar o estrago com durepóxi ou com outro material inapropriado. Os que sobraram tiveram os desenhos enegrecidos pela poluição. "Há em várias janelas valiosos vitrais europeus executados por artistas de renome, como Max Ingrand", afirma o arquiteto Arnaldo Sarasá, que os desmontou um por um para o conserto. "Nem todos são bem-feitos. No meio deles, existem trabalhos ruins, realizados às pressas." Entre os nacionais, estão exemplares da famosa Casa Conrado, que foi uma das mais conceituadas empresas vitralistas do país.

Mario Rodrigues
Cripta: jóia arquitetônica do neogótico


Passear pela catedral – com seus 111 metros de comprimento por 46 de largura e 5.700 metros quadrados de área construída – exige certo fôlego. A restauração não foi acompanhada de um estudo histórico, e, assim, muitos de seus detalhes passam despercebidos. Quando se caminha pela igreja, é preciso não esquecer de olhar para cima. No alto das colunas, há adaptações surpreendentes do estilo gótico. Tatus, tucanos, lagartos e frutas tropicais substituem os dragões e morcegos europeus. "A catedral nasceu da necessidade de a elite paulistana mostrar seu poder, e o estilo gótico era ideal para isso", explica Silvia Ingrid Lang, historiadora e professora da FGV. "A antiga igreja matriz era muito simples e não condizia mais com a São Paulo enriquecida pelo café." A Cúria Metropolitana tem um projeto de instalar um museu no local, mas ainda precisa conseguir patrocínio.



Mario Rodrigues
Vista do coro: mirante localizado a 15 metros do chão é aberto aos paulistanos

Mesmo sem muita informação disponível, ir à Sé não deixa de ser um passeio bonito e barato. Nunca a catedral esteve tão resplandecente. A estação de metrô é um convite a deixar o carro na garagem. Se a região continua perigosa? Bem, a Praça da Sé não virou exatamente um paraíso de segurança, mas já está bem melhor que alguns anos atrás. Conhecer o vizinho edifício do Tribunal de Justiça, aberto à visitação, é outro programa interessante. Sem contar que, a poucos minutos de caminhada, surgem o Pátio do Colégio, o Largo São Francisco, igrejas antigas, como a do Carmo, e um comércio típico do centro, formado, por exemplo, por sebos com ótimos achados. "É um ponto turístico único", diz Marco Antonio Ramos de Almeida, presidente da diretoria executiva da Associação Viva o Centro. "Um programa obrigatório para quem gosta de São Paulo."

 

O cardeal de pires na mão

Mario Rodrigues
Dom Cláudio: empenho para conseguir verba


Por trás do projeto de restauração da Catedral da Sé está um homem determinado, empreendedor e pouco sorridente. Há quatro anos no comando da maior arquidiocese do Brasil, com 7 milhões de fiéis, o cardeal-arcebispo dom Cláudio Hummes, de 68 anos, teve de se desdobrar para pagar a obra. Até agora, conseguiu 16 milhões dos 19,5 milhões de reais necessários para concluí-la. Quando a igreja foi fechada por má conservação, em 1999, ele decidiu ir a Brasília pedir ajuda a Fernando Henrique, reuniu-se com o então governador Mário Covas, bateu na porta do prefeito Celso Pitta... De pires na mão, foi recebido por banqueiros, empreiteiras e grandes empresários. "Eram os únicos em condições de arcar com um valor tão grande", conta. Poderosos como Olavo Setúbal, do Itaú, e Antônio Ermírio de Moraes, do grupo Votorantim, aderiram à causa. O Banco Safra também contribuiu. "Eles sabem que ainda precisam me ajudar", avisa o cardeal, com um leve sorriso.

Bem mais reservado e conservador que dom Paulo Evaristo Arns, seu antecessor, dom Cláudio vive discretamente em uma casa nos fundos do Convento da Luz. Acorda todos os dias às 5h45 e só se deita às 23h30. Quando não está visitando uma paróquia, almoça em casa – as refeições são preparadas por suas ajudantes, as freiras da congregação Servas do Senhor. Há duas décadas não vai ao cinema e jamais é visto em restaurantes. Às vezes, porém, sua eminência reverendíssima ­ tratamento que lhe cabe pelo protocolo ­ se permite cair em tentação: ataca um belo churrasco. "Sou um típico gaúcho", diz ele, nascido em Montenegro.

 

Recordações da catedral


Divulgação
Cerca de 1900 – Antes do monumento gótico, o Largo da Sé contava com uma igreja matriz simples, de estilo colonial, derrubada em nome do progresso trazido pela riqueza do café



Hildegar Rosenthal
Anos 40 – A catedral (à dir.) permanecia inacabada, tendo como vizinho o Palacete Santa Helena (à esq.), que seria demolido três décadas depois para a construção da Estação Sé do metrô



Claudio Edinger
1975 – Em 31 de outubro, dom Paulo Evaristo Arns, ao lado do rabino Henry Sobel, celebrou o histórico culto ecumênico em memória de Vladimir Herzog, morto nos porões do regime militar



Sergio Berezovsky
1984 – No aniversário de São Paulo, cerca de 300 000 pessoas se aglomeraram em volta da catedral pedindo eleições diretas para presidente

 

Catedral da Sé ­ Praça da Sé, s/nº, centro, Metrô Sé. Missa inaugural neste domingo (29), às 10h. A partir do dia 6, missas com dom Cláudio Hummes todos os domingos, às 11h.



      Atelier Sarasá expõem trabalhos na Catedral da Sé
      Catedral da Sé após restauração de Sarasá
      Preciosidade esquecida na Sé
      Restauração dos vitrais da Catedral da Sé

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